A arte da fotografia entusiasma muitos e não é de hoje. Leonardo da Vinci flertou com a câmera escura já no século XVI e desde então a incisão da luz tem papel protagonista nos registros que o homem faz do mundo que o rodeia.Mas hoje essa prática está cada vez mais esquecida. Com o advento da tecnologia digital os princípios da fotografia estão sendo deixados de lado e os pixels tomando conta do espaço antes reservado aos negativos.
Desenhar com luz
A palavra fotografia, vinda do grego, significa desenhar com luz. Isso porque é feita a reprodução da imagem em uma superfície sensível (no caso o filme fotográfico) através da exposição de luz.
Desde o Renascimento italiano na época de da Vinci até cerca de dez anos atrás o processo da fotografia foi se desenvolvendo em termos tecnológicos e artísticos: os profissionais foram experimentando ao passo do tempo e criando novas maneiras de expressar essa arte de infinitas facetas. Porém hoje, os caminhos seguidos nada se parecem a essa prática secular.
Um trabalho de resistência
A maioria dos fotógrafos profissionais de hoje em dia trabalha com a câmera digital, mas ainda há os que resistem firmemente ao passo do tempo, fotografando com suas máquinas analógicas, revelando os filmes e ampliando as fotos, uma a uma. Porém, para estes que querem seguir trabalhando com a fotografia analógica, encontrar quem faça o trabalho de revelação está cada vez mais complicado.
João Salgado é laboratorista. Os que não estão familiarizados com o registro fotográfico diriam talvez que ele trabalha em um laboratório médico, mas seu trabalho apesar de meticuloso não tem nada a ver com saúde – ele revela filmes fotográficos em preto e branco.Filho de laboratorista (seu pai começou trabalhando para a revista “O Cruzeiro” e segue ativo até hoje) foi dentro de casa que João aprendeu a arte de revelar filmes. Quando jovem observava seu pai naquela escuridão agindo feito alquimista: “Ele é do tempo em que se precisava pesar a quantidade de fórmula para diluir a química e fazer o revelador”.
A magia do quarto escuro
Os filmes monocromáticos (popularmente conhecidos como PB) podem ser revelados manualmente, basta ter um quarto absolutamente escuro (não se pode deixar passar nenhum feixe de luz) e uma seleção de produtos químicos que vão realizar a “magia” de fazer a imagem aparecer no papel.
O laboratorista, depois de passar o filme fotográfico por uma química já pode visualizá-lo e começar a produção das fotos. Para isso, é preciso ter um ampliador onde se coloca o negativo em uma espécie de lâmina e, com a
projeção de luz sobre o quadro da imagem ela irá relevar-se no papel fotográfico.Logo, ele passa para o processo de revelação fotográfica, que consiste em cinco etapas usando três diferentes compostos químicos: o revelador, o interruptor e o fixador. Em seguida o papel passa pela lavagem e por último pela secagem.
Para aqueles que jamais experimentaram revelar um filme, pode parecer um processo complicado, mas está longe de ser assim. Revelar uma imagem em PB manualmente requer arte, coisa que João Salgado tem de sobra.
Para que o resultado final seja o desejado, cada foto é trabalhada separadamente, levando em conta a exposição e o contraste próprios de cada uma. “É como um photoshop manual, nós já trabalhamos a imagem desde sempre. O programa só reproduz as técnicas de laboratório”, conta João.
Uma vida em meio a imagens
Com 25 anos de carreira, João trabalha desde 2001 na Galeria ímã, na Vila Madalena, atendendo àqueles que ainda buscam a via artesanal para seu trabalho.
João conta que a partir do ano 1985 com a eleição de Tancredo e a abertura da imprensa os fotógrafos trabalhavam sem parar, e as agências de foto de proliferavam sem controle. Foi nessa época que começou a trabalhar na Agência Angular, montada por uma série de profissionais. Quando ela se desintegrou nos anos 90 e cada um foi para o seu lado, João foi convidado pelo fotógrafo Egberto Nogueira para trabalhar em sua galeria, a Ímã.
Hoje, João admite estar preocupado com seu negócio: “Acredito que a fotografia analógica dura mais uns dez anos. Mas enquanto o material ainda for fabricado e as pessoas tiverem interesse, estarei aqui”.
Galeria Ímã
Com exposições e cursos relacionados à fotografia, a galeria Ímã é uma das pioneiras da região neste ramo. Os cerca de 80 artistas em seu catálogo abrem um leque de variedades que enchem os olhos dos amantes da fotografia. Para os profissionais, o espaço ainda oferece o trabalho de impressão, moldura e portfólio. São tantos os serviços que estão todos sempre por lá: “Os fotógrafos acabam fazendo terapia aqui”, comenta a co-proprietária Carla comenta entre risos.
A poesia impressa pelo desenho da luz revelado em papel que tanto fascinou no passado está ativa, fortemente, em pequenos ateliês do mundo. Basta encontrá-los.
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